"Pedem-me que escreva algumas linhas sobre Júlio Dantas. Faço-o com o maior prazer, podendo afirmar – salvas as devidas distâncias na parte que me toca - como Jules Lemaitre ao falar de Loti: "Il me fait trop de plaisir et un plaisir trop aigu et qui s'enfonce trop dans ma chair pour que je sois en état de le juger. A peine ai-je su dire que je l'amais".
Nem eu nesta página poderia julga-lo bem, uma vez que a sua obra tem de ser olhada sob vários aspectos e com a demorada e cuidadosa atenção que devem merecer-nos sempre as obras dos grandes mestres.
O lugar que Júlio Dantas ocupa nas letras portuguesas conquistou-o, como nenhum outro escritor do nosso tempo, à força de talento, vencendo todas as campanhas urdidas contra ele, sem alterações de ânimo, sem pressas, trabalhando sempre e cada vez melhor, a ponto de dominar até aqueles que mais acesa e violentamente o combatiam. Poderia citar casos interessantes, se o espaço de que disponho mo permitisse. Em todos os géneros tem sabido triunfar, mas é principalmente no teatro que a sua alta personalidade literária mais se afirma, criando uma série notabilíssima de tipos capaz de resistir a todos os confrontos e ao mais detido exame.
O teatro histórico tem no eminente dramaturgo uma altíssima expressão formando com Marcelino Mesquita, D. João da Câmara e Lopes de Mendonça o grupo admirável que conseguiu manter no coração do povo o nobre orgulho da sua raça, numa época em que a política desnacionalizadora e bárbara de um regime e uma orientação literária francamente negativista iam cavando cada vez mais fundo o abismo onde se despenharia a nacionalidade.
A sua obra é, de resto, quase inteiramente de exaltação patriótica e, o que ainda ninguém acentuou bem, de exaltação do povo, tanto nas suas peças como nesses três lindíssimos episódios em que consubstancia a revolução republicana de 14 de Maio, e ainda nesses maravilhosos capítulos, que são outras tantas águas-fortes, dedicados ao soldado português da Grande Guerra. Em todos os seus livros se encontram páginas fulgurantes de epopeia popular, como nessa extraordinária Pátria Portuguesa, onde perpassa entre clarões de glória tudo quanto o povo português criou de grande e de belo na sua inigualável, embora curta existência de oito séculos.
Desejaria trazer para aqui todas as suas figuras de humildes, arrancando-as uma por uma das páginas em que palpitam e com as quais se devia ter feito já um grande livro destinado às crianças das escolas, para que elas, filhas do povo, melhor compreendessem, ao lê-las, a épica grandeza dos feitos dos seus avós e a inesgotável energia, a indomável tenacidade da legião estranha e heróica a que pertencem.
Mas tenho um limitado espaço para escrever e a índole desta publicação não se presta a isso. Felizmente, os livros de Júlio Dantas andam hoje nas mãos de toda a gente e as suas peças representam-se em todos os teatros, passando a fronteira e percorrendo triunfalmente as grandes capitais da Europa e da América.
A homenagem que este Almanach presta ao insigne dramaturgo é, pois, justíssima. Júlio Dantas é hoje Alguém em Portugal, merecedor de todas as homenagens, não só pelo seu talento, que é enorme, como pelas suas virtudes, que não são menores.
Estas linhas escreve-as sinceramente quem tem a consciência nítida de quanto ele vale, por ter aprendido a admirá-lo através das suas obras e da sua lealíssima e nobre camaradagem." (Mário Salgueiro). In: Acervo Rui Calisto.