"Dezembro de 1914 (...) Barcelona acaba de aclamar no Teatro Apolo, a Santa Inquisição, de Júlio Dantas, consagrando, com a obra forte e bela do dramaturgo, o nome do seu ilustre autor. A Santa Inquisição é uma peça que pode dizer-se peninsular, pela sua índole, pelo seu processo, pela sua combativa construção. Por isso, o drama de Isabel Conti, mulher de Micer António e a figura do Cardeal Inquisidor Geral, serão ainda mais sentidos em Espanha do que o foram em Portugal, onde despertaram lágrimas e paixões." (Augusto de Castro). In: Acervo Rui Calisto.
domingo, 31 de janeiro de 2010
PÁTRIA PORTUGUESA
"Se Júlio Dantas não fosse um grande homem de letras e melhor tivesse desenvolvido e educado o seu brilhante instinto da luz, da linha e da perspectiva, seria, com certeza, a estas horas, um estranho e impressivo pintor. Nasceu um colorista. A sua visão de poeta, de dramaturgo, de historiógrafo é, toda ela, dominada por esse sentimento e por essa sugestão da cor. A sua obra, já hoje vastíssima, é, acima de tudo, uma sucessão de pequenos ou grandes, largos, gentis, quadros, em que a sensibilidade d’um pincel do século XVIII compõe, combina tintas e aspectos.
Para ele, a História é ainda uma grande pintura. No fundo dessa pintura, formigam, palpitam, latejam, agitam-se almas, convulsões, ideias. Mas, através da sua evocação poderosa, essas almas, essas convulsões e essas ideias são sempre reduzíveis a paisagem, a atitudes, à expressão delicada ou sombria da tela. Antes de sugerir o facto, ilumina a imagem. Antes de animar a figura, veste-a. Ninguém, por isso, em Portugal, conhece, melhor do que ele, indumentária. Ninguém possui, por isso, na literatura portuguesa de hoje um maior poder evocativo. Ninguém dispõe actualmente, entre nós, d’um vocabulário de mais surpreendentes roupagens.
A policromia da sua visão vai, desde a graça subtil d’”A Ceia dos Cardeais” e das “Rosas de todo o ano”, em que as rendas e gentilezas de Watteau brincam e sorriem na aguarela, até aos claros escuros admiráveis da “Santa Inquisição” e de algumas das suas ressurreições históricas, como essa das cortes gerais no “Rei Saudade”, que é das mais nobres e impressivas coisas que o seu talento tem produzido.
A esse precioso, vibrante, complexo sentimento da cor, a essa sensibilidade agudíssima de artista, juntem a cultura perfeita, a cultura sóbria, elegante, d’um erudito. Aí tem, em toda a sua significação, a razão esplêndida do seu triunfo. E eis porquê, na indecisa, apagada, vida literária portuguesa de hoje, em que tantas vozes se perdem, inúteis, Júlio Dantas é sempre alguém que se escuta – porque é sempre alguém que tem que dizer. Há na sua obra páginas agressivas, páginas audaciosas, páginas discutíveis – mas não há uma só página banal. Em teatro, uma nova peça sua poderá não ser amanhã uma aclamação – mas será sempre um acontecimento. Um livro seu será sempre – uma sugestão. O seu nome será sempre – um debate. A glória literária, em vida, não é outra coisa. Júlio Dantas chegou aos trinta e tantos anos a essa glória.
Entre o seu primeiro livro, o “Nada” e a “Pátria Portuguesa” medeia o espaço de dezoito anos. E nesses dezoito anos, desde o poeta negativista e baudelairiano da “Ruiva” e dos “Cadáveres” até à forte e poderosa afirmação do episódio d’”O Tambor”, cuja prosa viva, e lampejante, um sopro camiliano anima por vezes – fica a maravilhosa ascensão d’um privilegiado temperamento. Esses dezoito anos valem como uma das mais orgulhosas manifestações de vitalidade literária que eu conheço – mas valem também, no nosso meio, como um raro caso. São dezoito anos d’um paciente, infatigável estudo, que é um prodígio de método, entre velhos códices e emoções de beleza; são dezoito anos de actividade de espírito, numa terra em que a mocidade e as idéias se desperdiçam na maledicência e na futilidade.
E ainda hoje, na conquista perfeita de todos os triunfos, este grande erudito da cor, este admirável pintor da palavra, continua, perscrutando as sombras e as tintas do passado, aglomerando idéias, cantando, ressurgindo figuras, escrevendo livros, com o esforço insatisfeito e a ânsia criadora de quem começou ontem." (Augusto de Castro). In: Acervo Rui Calisto.
Coelho Netto (1)
"13 de Abril de 1914 - Literatura Brasileira - A literatura do Brasil não tem só admiráveis poetas. Não foi apenas no verso, ao mesmo tempo convulso e perfeito, lapidar e ardente, que o génio brasileiro encontrou a sua gloriosa expressão. Também na prosa, - cujas raízes, ricas de seiva, mergulham nas mais puras fontes da língua portuguesa. No "Rei Negro", do grande romancista Coelho Netto, honra da literatura americana, a prosa brasileira atinge uma amplitude, uma energia, uma força, um poder de orquestração, um explendor de expressão verbal, uma audácia persuasiva, uma eloquência dominadora, - que arrastam, que subjugam e que maravilham.(J.D.)" In: Acervo Rui Calisto.
Fotobiografia
"Dezembro de 1913 (...) O Académico Sr. Dr. Júlio Dantas, que fez o elogio de Bulhão Pato, saindo da Academia." In: Arquivo Histórico Júlio Dantas. Acervo Rui Calisto.
Etiquetas:
Fotobiografia de Júlio Dantas
sábado, 30 de janeiro de 2010
Rafael Bordalo Pinheiro (1)
“1915 (…) Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro, o ceramista e caricaturista ilustre, representante de uma família em que o talento, como um título nobiliárquico, se transmite de geração em geração, acaba de publicar um livro acerca da obra do seu glorioso pai. Sousa Pinto, o elegante prosador do “Jardim das Mestras”, diz nesse livro o que foi a vida do grande Rafael Bordalo. A homenagem é digna de quem a recebe e de quem a presta. Desde o velho pai Bordalo, o provecto artista de hábitos patriarcais, que nos legou maravilhosos quadrinhos pintados à maneira flamenga e que a eternidade de quarenta anos injustamente deixou esquecer, até Rafael Bordalo Pinheiro, cuja obra fragmentária, brusca, impetuosa, combativa, cheia de eloquência e de brilho, de orgulho e de bravura, realizou a síntese de uma época; desde Columbano, cuja pintura neo-velasquiana ficará como uma das mais belas expressões do génio nacional, até à graça feminina e leve da Sra. D. Maria Augusta, em cujas mãos milagrosas se fez a renascença da renda portuguesa, e até Manuel Gustavo, a quem a nossa faiança já tanto deve, – a nobre família Bordalo tem mantido a sua linha de sucessão num morgadio de glória. O livro que acaba de publicar-se é mais um documento de inestimável valor para o estudo dessa família ilustre. (Júlio Dantas)”In: Acervo Rui Calisto.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
O PRIMEIRO BEIJO
Na Ilustração Portuguesa de 1915: "Cena da peça do ilustre escritor e nosso colaborador, Sr. Dr. Júlio Dantas, O Primeiro Beijo, que com um espectáculo constituído por outras brilhantes peças suas, A Ceia dos Cardeais e Rosas de todo o ano, foi representada no Teatro da Paz, no Pará (Brasil), solenizando a fundação do Estado e Cidade de Belém. Os papéis foram assim distribuídos: Morgada da Rosa, Madame Romero; Morgado de Amares, Sr. Aníbal Ramos e Guardião de S. Francisco, Sr. João Carlos Soares". In: Acervo Rui Calisto.
domingo, 24 de janeiro de 2010
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Livros Publicados
Poesia:
• - Nada (1896)
• - Nada (ed. crítica comem. do 1º Cent. do Nasc. Do Autor – 1976 – Int. de J. C. S. Pereira)
• - Sonetos (1916)
Prosa:
• - A Lisboa que viu nascer o “Jornal do Comércio” (1953)
• - A Severa (1901)
• - Abelhas Doiradas (1920)
• - Alta Roda (1932) – 3ªed;
• - Ao Ouvido de Madame X (1915)
• - Arte de Amar (1922)
• - As Inimigas do Homem (1933)
• - Cartas de Londres (1927)
• - Contos (1930)
• - Discursos (1942);
• - Doentes (Com Manuel Penteado – 1897)
• - Eles e Elas (1918)
• - Espadas e Rosas (1919)
• - Eterno Feminino (1929)
• - Eva (1925)
• - Figuras de Ontem e de Hoje (1914)
• - Grandes Figuras (Obra Póstuma - 1972)
• - Lisboa dos Nossos Avós (Obra Póstuma – 1966)
• - Marcha Triunfal (1954)
• - Mulheres (1916)
• - O Amor em Portugal no Século XVIII (1915)
• - O Heroísmo, A Elegância, O Amor (1923) – 2ªed;
• - Os Galos de Apolo (1921)
• - Outros Tempos (1909)
• - Páginas de Memórias (Obra Póstuma – 1968)
• - Pátria Portuguesa (1914)
• - Revoada de Musas (Obra Póstuma – 1965)
• - Tribuna (1960);
• - Viagens em Espanha (1936)
Obra Dramática:
• - 1023 (Mil e vinte e três) (1914) – 3ª edição.
• - A Catedral (Obra Póstuma – 1970)
• - A Ceia dos Cardeais (1902) – 51ª edição. (Obs. Deve ter passado da 100ª edição)
• - A Severa (1901)
• - Alta Roda (1932)
• - Antígona (1946)
• - Auto da Rainha Cláudia (1897)
• - Carlota Joaquina (1919)
• - Como Elas Amam (1920)
• - Crucificados (1902)
• - D. Beltrão de Figueirôa (1902)
• - D. Ramon de Capichuela (1912)
• - Diálogos (1928)
• - Elogio do Sorriso (1948)
• - Frei António das Chagas (1947)
• - Mater Dolorosa (1908)
• - O Primeiro Beijo (1911)
• - O que morreu de amor (1899)
• - O Reposteiro Verde (1912)
• - Outono em Flor (1949)
• - Paço de Veiros (1903)
• - Rosas de todo o ano (1907)
• - Santa Inquisição (1910)
• - Sóror Mariana (1915)
• - Um Serão nas Laranjeiras (1904)• - Viriato Trágico (1900)
• - Nada (1896)
• - Nada (ed. crítica comem. do 1º Cent. do Nasc. Do Autor – 1976 – Int. de J. C. S. Pereira)
• - Sonetos (1916)
Prosa:
• - A Lisboa que viu nascer o “Jornal do Comércio” (1953)
• - A Severa (1901)
• - Abelhas Doiradas (1920)
• - Alta Roda (1932) – 3ªed;
• - Ao Ouvido de Madame X (1915)
• - Arte de Amar (1922)
• - As Inimigas do Homem (1933)
• - Cartas de Londres (1927)
• - Contos (1930)
• - Discursos (1942);
• - Doentes (Com Manuel Penteado – 1897)
• - Eles e Elas (1918)
• - Espadas e Rosas (1919)
• - Eterno Feminino (1929)
• - Eva (1925)
• - Figuras de Ontem e de Hoje (1914)
• - Grandes Figuras (Obra Póstuma - 1972)
• - Lisboa dos Nossos Avós (Obra Póstuma – 1966)
• - Marcha Triunfal (1954)
• - Mulheres (1916)
• - O Amor em Portugal no Século XVIII (1915)
• - O Heroísmo, A Elegância, O Amor (1923) – 2ªed;
• - Os Galos de Apolo (1921)
• - Outros Tempos (1909)
• - Páginas de Memórias (Obra Póstuma – 1968)
• - Pátria Portuguesa (1914)
• - Revoada de Musas (Obra Póstuma – 1965)
• - Tribuna (1960);
• - Viagens em Espanha (1936)
Obra Dramática:
• - 1023 (Mil e vinte e três) (1914) – 3ª edição.
• - A Catedral (Obra Póstuma – 1970)
• - A Ceia dos Cardeais (1902) – 51ª edição. (Obs. Deve ter passado da 100ª edição)
• - A Severa (1901)
• - Alta Roda (1932)
• - Antígona (1946)
• - Auto da Rainha Cláudia (1897)
• - Carlota Joaquina (1919)
• - Como Elas Amam (1920)
• - Crucificados (1902)
• - D. Beltrão de Figueirôa (1902)
• - D. Ramon de Capichuela (1912)
• - Diálogos (1928)
• - Elogio do Sorriso (1948)
• - Frei António das Chagas (1947)
• - Mater Dolorosa (1908)
• - O Primeiro Beijo (1911)
• - O que morreu de amor (1899)
• - O Reposteiro Verde (1912)
• - Outono em Flor (1949)
• - Paço de Veiros (1903)
• - Rosas de todo o ano (1907)
• - Santa Inquisição (1910)
• - Sóror Mariana (1915)
• - Um Serão nas Laranjeiras (1904)• - Viriato Trágico (1900)
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Júlio Dantas para as novas gerações
Júlio Dantas nasceu em Lagos, Portugal. Estudou no Colégio Militar, e formou-se em Medicina na Escola Médico Cirúrgica de Lisboa em 1900. Oficial médico do exército a partir de 1902, deputado em 1905, sócio da Academia das Ciências de Lisboa desde 1908, sendo seu presidente a partir de 1922, foi director do Conservatório Nacional, sendo ali professor de História da Literatura e director da Secção de Arte Dramática, foi Ministro da Instrução Pública em 1920, Ministro dos Negócios Estrangeiros em 1921/1922/1923, em 1941 foi um dos Embaixadores Especiais enviados ao Brasil para dignificar a cultura de Portugal, em 1949 foi nomeado Embaixador de Portugal no Rio de Janeiro.
Foi um fecundo autor em prosa e verso, tendo publicado o seu primeiro artigo no periódico Novidades no ano de 1893 e o seu primeiro livro de poemas no ano de 1897. A peça de teatro A Ceia dos Cardeais é até os dias de hoje a mais representada na língua portuguesa, bem como a mais traduzida para diversos idiomas, outros livros que granjearam muita popularidade em Portugal e no estrangeiro são: Paço de Veiros, O Reposteiro Verde, Pátria Portuguesa (uma exaltação ao povo e condenação da nobreza), A Severa (que deu origem ao primeiro filme sonoro português, realizado por José Leitão de Barros), O que Morreu de Amor, Santa Inquisição (diante do conflito iniciado com a Igreja Católica por causa da Lei da Separação de Afonso Costa, escreve esta peça onde condena violentamente o Tribunal do Santo Oficio), Frei António das Chagas, Abelhas Doiradas, Elogio do Sorriso, Um Serão nas Laranjeiras, Cartas de Londres e Lisboa dos Nossos Avós. O período da história que mais gostou de retratar foi o Século XVIII, onde exaltou o efémero, a morte, e o cosmopolitismo, salientando toda a decadência da vida aristocrática da época.
Foi um exímio tradutor, devendo-se a ele a melhor tradução, até à actualidade, para o português, de Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand e O Rei Lear, de William Shakespeare. Foi peça fundamental na elaboração de um acordo ortográfico com o Brasil, foi um dos fundadores da SECTP – Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses (hoje a SPA – Sociedade Portuguesa de Autores) sendo o seu primeiro presidente.
Vitorino Nemésio e David Mourão Ferreira defendem a sua qualidade literária, invulgar mestria dramatúrgica e perfeito senso de investigação, dando-lhe um dos principais lugares de destaque nas letras portuguesas.
Quando casou o fez pelo civil e quando morreu, apesar da grande comoção nacional, o seu funeral foi simples, realizado sem pompa, e como havia pedido, sem honras católicas, mantendo-se assim, fiel às suas convicções anti-clericais do início do Século XX.
Resgatar a história de vida e as obras literárias de Júlio Dantas é recuperar uma parte da história de Portugal. Um legado que nunca deveria ter deixado de estar presente nas livrarias nacionais. Pela Língua Portuguesa. Sempre.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
A Espada
No convento, e talvez dez léguas em redor,
Frei André de Jesus tinha fama de santo:
Vigílias, orações, milagres, – e, entretanto,
Nunca tentara a Deus tão grande pecador.
Em moço, fôra o mais terrível e o melhor
Dos duelistas de Espanha: ao vento o feltro e o manto,
Batia-se a sorrir, matava a cada canto,
Chamava à sua espada o seu primeiro amor.
Depois envelheceu, surgiu do seu engano,
Tomou para mortalha o burel franciscano, –
Mas apesar de frade, e santo, e penitente,
Na sua cela, um dia, alguém o viu, a medo,
Abraçado a uma velha espada de Toledo,
A chorar, a chorar silenciosamente…
(In: Dantas, Júlio. Sonetos. 4ªed, Lisboa, Portugal-Brasil Ltda, 1916, p.41.)
Subscrever:
Mensagens (Atom)



