A Espada
No convento, e talvez dez léguas em redor,
Frei André de Jesus tinha fama de santo:
Vigílias, orações, milagres, – e, entretanto,
Nunca tentara a Deus tão grande pecador.
Em moço, fôra o mais terrível e o melhor
Dos duelistas de Espanha: ao vento o feltro e o manto,
Batia-se a sorrir, matava a cada canto,
Chamava à sua espada o seu primeiro amor.
Depois envelheceu, surgiu do seu engano,
Tomou para mortalha o burel franciscano, –
Mas apesar de frade, e santo, e penitente,
Na sua cela, um dia, alguém o viu, a medo,
Abraçado a uma velha espada de Toledo,
A chorar, a chorar silenciosamente…
(In: Dantas, Júlio. Sonetos. 4ªed, Lisboa, Portugal-Brasil Ltda, 1916, p.41.)
Sem comentários:
Enviar um comentário