"Se Júlio Dantas não fosse um grande homem de letras e melhor tivesse desenvolvido e educado o seu brilhante instinto da luz, da linha e da perspectiva, seria, com certeza, a estas horas, um estranho e impressivo pintor. Nasceu um colorista. A sua visão de poeta, de dramaturgo, de historiógrafo é, toda ela, dominada por esse sentimento e por essa sugestão da cor. A sua obra, já hoje vastíssima, é, acima de tudo, uma sucessão de pequenos ou grandes, largos, gentis, quadros, em que a sensibilidade d’um pincel do século XVIII compõe, combina tintas e aspectos.
Para ele, a História é ainda uma grande pintura. No fundo dessa pintura, formigam, palpitam, latejam, agitam-se almas, convulsões, ideias. Mas, através da sua evocação poderosa, essas almas, essas convulsões e essas ideias são sempre reduzíveis a paisagem, a atitudes, à expressão delicada ou sombria da tela. Antes de sugerir o facto, ilumina a imagem. Antes de animar a figura, veste-a. Ninguém, por isso, em Portugal, conhece, melhor do que ele, indumentária. Ninguém possui, por isso, na literatura portuguesa de hoje um maior poder evocativo. Ninguém dispõe actualmente, entre nós, d’um vocabulário de mais surpreendentes roupagens.
A policromia da sua visão vai, desde a graça subtil d’”A Ceia dos Cardeais” e das “Rosas de todo o ano”, em que as rendas e gentilezas de Watteau brincam e sorriem na aguarela, até aos claros escuros admiráveis da “Santa Inquisição” e de algumas das suas ressurreições históricas, como essa das cortes gerais no “Rei Saudade”, que é das mais nobres e impressivas coisas que o seu talento tem produzido.
A esse precioso, vibrante, complexo sentimento da cor, a essa sensibilidade agudíssima de artista, juntem a cultura perfeita, a cultura sóbria, elegante, d’um erudito. Aí tem, em toda a sua significação, a razão esplêndida do seu triunfo. E eis porquê, na indecisa, apagada, vida literária portuguesa de hoje, em que tantas vozes se perdem, inúteis, Júlio Dantas é sempre alguém que se escuta – porque é sempre alguém que tem que dizer. Há na sua obra páginas agressivas, páginas audaciosas, páginas discutíveis – mas não há uma só página banal. Em teatro, uma nova peça sua poderá não ser amanhã uma aclamação – mas será sempre um acontecimento. Um livro seu será sempre – uma sugestão. O seu nome será sempre – um debate. A glória literária, em vida, não é outra coisa. Júlio Dantas chegou aos trinta e tantos anos a essa glória.
Entre o seu primeiro livro, o “Nada” e a “Pátria Portuguesa” medeia o espaço de dezoito anos. E nesses dezoito anos, desde o poeta negativista e baudelairiano da “Ruiva” e dos “Cadáveres” até à forte e poderosa afirmação do episódio d’”O Tambor”, cuja prosa viva, e lampejante, um sopro camiliano anima por vezes – fica a maravilhosa ascensão d’um privilegiado temperamento. Esses dezoito anos valem como uma das mais orgulhosas manifestações de vitalidade literária que eu conheço – mas valem também, no nosso meio, como um raro caso. São dezoito anos d’um paciente, infatigável estudo, que é um prodígio de método, entre velhos códices e emoções de beleza; são dezoito anos de actividade de espírito, numa terra em que a mocidade e as idéias se desperdiçam na maledicência e na futilidade.
E ainda hoje, na conquista perfeita de todos os triunfos, este grande erudito da cor, este admirável pintor da palavra, continua, perscrutando as sombras e as tintas do passado, aglomerando idéias, cantando, ressurgindo figuras, escrevendo livros, com o esforço insatisfeito e a ânsia criadora de quem começou ontem." (Augusto de Castro). In: Acervo Rui Calisto.