“Publiquei no meu blogue, em 26 de Maio (2009), um post sobre Júlio Dantas, no 47º aniversário da sua morte. Porque era um académico ilustre, porque foi um dos mais profundos conhecedores da língua portuguesa, porque publicou dezenas de livros que na forma e no conteúdo são textos notáveis (poesia, ensaio, ficção, teatro), porque os seus discursos constituem das mais belas peças de oratória depois do Padre António Vieira (sim, é verdade, embora muitos desconheçam ou ignorem propositadamente esta verdade), porque a maior parte das suas peças foi representada com um êxito que faz inveja à maioria das actuais produções teatrais, porque desempenhou brilhantemente funções de ministro e de embaixador, porque foi um inovador nos temas das suas peças, algumas das quais foram extraordinariamente arrojadas para a época (tal como o "Mar Alto", de António Ferro, que foi proibido pelo Governo Civil de Lisboa em plena I República), e porque escreveu "A Ceia dos Cardeais", que está traduzida em dezenas de línguas, por tudo isto e possivelmente mais, Júlio Dantas tornou-se um mal-amado da literatura portuguesa. Esquecido pela direita (a que não pertencia), ignorado pelo centro (que vive a sua própria ignorância), atacado pela esquerda (de quem no fundo estaria porventura mais próximo) que julgou ler nele um camareiro real (ou papal), não sabendo medir as distâncias no tempo (a sua obra tem um século), Júlio Dantas foi empurrado para o limbo do esquecimento, de que apenas sai pela evocação do famoso manifesto de Almada, utilizado a torto e a direito sem que se saiba bem porquê (…) os ecos que me chegam neste blogue esclarecem-me o suficiente para poder denunciar a ignorância, a estupidez, o oportunismo ou mesmo a má-fé de todos quantos se encarniçam a apoucar o Dantas, sem dele terem lido, porventura, uma única linha! Afinal, ser-me-ia também fácil, se estivesse possesso de estultícia, escrever agora aqui: MORRAM TODOS OS DETRACTORES DO DANTAS. PIM!” (João Gonçalves. In: “Do Médio Oriente e Afins”)